Você comprou um título público, guardou, e semanas depois abriu o aplicativo. O valor estava menor do que você aplicou.
A reação natural é achar que algo deu errado. Renda fixa não era para ser previsível? Se ninguém mexeu, como é que caiu?
Nada deu errado. O que você viu tem nome, está na regra do produto desde sempre, e entender isso é a diferença entre atravessar a oscilação e vender no pior momento possível.
O que você está olhando
O número no aplicativo é quanto o seu título valeria se você o vendesse hoje, e não o que você aplicou nem o que vai receber.
Isso se chama marcação a mercado, e quer dizer que o título é reprecificado todo dia útil, de acordo com as condições do mercado naquele dia. O seu título não mudou. O preço pelo qual ele é negociado, sim.
Por que o preço se move
O Tesouro Nacional explica o mecanismo de forma direta: entre a data do investimento e a do vencimento, o preço varia conforme as condições de mercado e as expectativas sobre as taxas de juros futuras. E a relação é inversa: quando a taxa de juros de mercado sobe em relação à taxa que você contratou, o preço do seu título cai. Quando a taxa de mercado cai, o preço sobe.
A lógica fica clara com um exemplo. Você comprou um título que paga 12% ao ano. Semanas depois, títulos novos estão saindo a 14%. Quem quiser comprar o seu hoje não vai pagar o mesmo preço por um papel que rende menos que o da vitrine: vai pagar menos, o suficiente para que, do preço de hoje até o vencimento, o retorno dele se equipare ao que o mercado oferece agora.
O seu título continua prometendo a mesma coisa. O que mudou foi quanto o mercado paga por essa promessa hoje.
Se você quiser entender o que empurra essas taxas para cima e para baixo, a Selic é o começo da explicação.
Preço não é perda
Aqui está a distinção que resolve o problema inteiro.
Preço é quanto vale se você vender. Perda é o que acontece quando você vende. Enquanto você não vende, o número oscila e não realiza nada, nem para baixo, nem para cima.
É o mesmo raciocínio que você aplica sem pensar com um imóvel. Se o apartamento vizinho ao seu foi vendido barato num mês ruim, o seu apartamento “caiu de preço”. Você não perdeu dinheiro. Você perderia se vendesse naquele mês.
A diferença é que o título mostra o preço todo dia, no aplicativo, e o imóvel não. A oscilação sempre existiu nos dois. Num deles ela é visível.
Nem todo título oscila igual
Essa é a parte que costuma faltar, e ela muda o que você deve esperar.
Títulos pós-fixados, que acompanham a Selic, praticamente não sofrem com isso: como a remuneração acompanha a taxa corrente, não há descompasso entre o que você contratou e o que o mercado oferece. É por isso que eles são os menos sujeitos a sustos de preço.
Títulos prefixados e os atrelados à inflação oscilam, e quanto mais longo o vencimento, mais oscilam. Um papel com dez anos pela frente tem muito mais tempo de descompasso do que um com dois.
Isso não faz de um melhor que o outro. Faz deles adequados a prazos diferentes, e é por isso que a pergunta qual título comprar só faz sentido depois da pergunta para quando eu preciso desse dinheiro. Se você ainda não leu o básico do Tesouro Direto, essa é a base que sustenta o resto.
O que o vencimento faz, e o que ele não faz
O Tesouro Nacional é explícito: quem fica com o título até a data de vencimento recebe o valor correspondente à rentabilidade definida no momento do investimento, independentemente das variações de preço ao longo da aplicação.
Mas o vencimento não promete ganho. Ele marca a data em que o preço deixa de importar.
A distinção é importante e vale dizer com todas as letras. A rentabilidade contratada define quanto, pela regra daquele título. Num prefixado, e também num pós-fixado, ela não garante que esse número vá superar a inflação do período. Não anula o imposto de renda, que segue a tabela regressiva. Não anula a taxa de custódia. E, principalmente, não cria a capacidade de esperar: se você precisar do dinheiro antes, vender no meio do caminho é a sua única opção, e aí o preço do dia é o que vale.
Por isso o vencimento só ajuda quem escolheu um prazo compatível com a própria vida, e, sozinho, não substitui uma estratégia.
Os custos que continuam existindo
Duas coisas que a oscilação esconde e que estão sempre lá.
Imposto de renda, pela tabela regressiva: quanto mais tempo aplicado, menor a alíquota, até o piso de 15% acima de 720 dias. Ele incide sobre o rendimento no resgate ou no vencimento e, nos títulos que pagam juros a cada semestre, também em cada pagamento de juros, com a alíquota que corresponde ao tempo desde a compra.
Taxa de custódia da B3, de 0,20% ao ano sobre o valor dos títulos. Com uma exceção relevante: investimentos em Tesouro Selic são isentos dessa taxa até R$ 10.000,00 em estoque. Acima disso, a cobrança incide só sobre o que exceder.
Uma coisa prática que quase ninguém sabe
Se você decidir vender, o horário importa.
Das 9h30 às 18h em dias úteis, o resgate é processado com os preços e taxas do momento da transação. Fora dessa janela (das 18h às 5h, fins de semana e feriados) o resgate é liquidado com os preços de abertura do dia útil seguinte.
Ou seja: uma venda decidida às onze da noite, no susto, será executada a um preço que você ainda não viu. A regra do programa diz isso de forma explícita. Mas é mais um motivo para não decidir resgate à noite.
O erro que a oscilação provoca
O padrão é sempre o mesmo: o preço cai, a pessoa se assusta, vende, e transforma uma variação em perda realizada. Se o preço volta, ela assiste de fora.
Isso acontece com gente inteligente também, porque é assim que a cabeça humana reage a número vermelho. Os vieses que sabotam decisões de investimento explicam o mecanismo, e vale conhecer o seu antes de precisar dele.
O que protege contra isso é ter escolhido, na compra, um prazo que você consegue cumprir, sem depender de força de vontade na hora do susto. Com esse prazo, a oscilação vira o que ela é: um número que muda no caminho e não muda o destino.
Conteúdo educacional. Não é recomendação de investimento e não sugere a compra ou a venda de nenhum título. Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura. Para a sua situação, procure um profissional habilitado.


